domingo, 9 de maio de 2010

Professor também é um pouquinho mãe!

"Na tentativa de buscar imagens, metáforas, enfim, elementos que possam auxiliar na composição da função do professor em sala de aula, penso ter encontrado na teoria do inglês Winnicott uma possibilidade.
Donald Winnicott foi pediatra e psicanalista (1896-1971) e estudou os estágios mais primitivos do desenvolvimento emocional do ser humano. Para ele, o bebê só existe como parte de uma relação, na condição de absoluta dependência da mãe. Sendo assim, o ambiente tem uma influência determinante sobre a constituição do psiquismo precoce.
Pensando nas qualidades que a mãe precisa ter para proporcionar ao filho os cuidados indispensáveis ao seu desenvolvimento, é que Winnicott concebeu o conceito de “mãe suficientemente boa”, que compreende a condição em que a mãe possua a disponibilidade e os elementos necessários para acompanhar o filho em suas necessidades mais primitivas e básicas. Ela não precisa ser perfeita. Basta que atenda ao filho de forma rotineira, mas flexível. Digamos que a mãe suficientemente boa é monótona, pois ela cria um ambiente previsível, que responde às necessidades do bebê, proporcionando a ele uma situação de continuidade, importante para a formação e o fortalecimento da segurança, da confiança e, principalmente, para a integração corpo e mente. No início da vida e durante algum tempo, o bebê não reconhece o outro, porque está fusionado à mãe.
Outro conceito ligado ao de “mãe suficientemente boa” é o de “holding”, que se traduz na idéia da “sustentação das condições básicas para que o bebê viva suas experiências físicas e psíquicas, sem perigo”. Mas o conceito não significa que a mãe não possa falhar, pelo contrário. O que importa é que não ocorram falhas que invadam e quebrem, de forma violenta, a linha de continuidade que o bebê vinha experimentando, de forma a provocar nele “fantasias de aniquilamento”.
A relação intensa e necessária entre mãe e filho, expressa no conceito de “mãe suficientemente boa”, de Winnicott, é uma relação de humanização e é comum a cada um de nós. Não há como fazermo-nos humanos sem a existência e a presença atenta de alguém. O colo, o olhar, a palavra, a preocupação vão construindo os primeiros significados, livrando-nos de nossa insignificância original, além de reafirmar nossa existência. O olhar do outro reconhece a nossa existência. E, justamente porque dependemos imensamente disso tudo que vem do outro, é que temos medo. A convivência social é dolorosa, porque é importante demais.
Se nesse momento inicial da vida tudo corre suficientemente bem, a criança pode evoluir no seu crescimento. Então, gradativamente, a mãe pode ir se distanciando, rompendo aos poucos os laços fusionais e introduzindo os elementos da realidade, assim como outras pessoas no ambiente.
Durante toda a infância, outros estágios virão até que a entrada na adolescência provocará um questionamento e uma revisão de todos os valores, preparando o jovem para os rompimentos necessários a sua inserção no mundo adulto.
A entrada da criança na escola tem acontecido cada vez mais cedo. Se tempos atrás era somente por volta dos cinco anos, agora tem ocorrido aos dois anos, muitas vezes até antes disso. A distância que separava a escola da família foi encurtada. As funções da escola vêm sendo modificadas no sentido de uma maior responsabilidade sobre seus alunos. Funções que antes competiam à família hoje são delegadas à escola.
E o professor vem lutando para sustentar sua posição de autoridade, abalada pelo estremecimento de convicções e valores que acompanha nossa entrada no século XXI.
O professor tem hoje a importante responsabilidade de receber a criança que chega marcada pelo rompimento causado pelo afastamento precoce do núcleo familiar, ao separar-se dos pais.
E, pensando em Winnicott, tentei imaginar como seria o professor suficientemente bom.
Como substituto que é da família, o professor suficientemente bom seria aquele que, nos primeiros anos, forneceria uma espécie de holding ou sustentação à criança, criando uma condição de rotina necessária à sua adaptação à nova experiência, que se inicia no ambiente escolar. Ele trataria de oferecer à criança uma presença viva, preocupada, atenta e amorosa e, principalmente, constante, que seria muito importante para a estruturação de sua imagem como referência segura. A relação aqui também seria, ainda, de dependência. A criança contaria com o professor para lhe garantir a percepção de que ali está alguém que detém um saber e uma autoridade fortes o suficiente para que ela sinta que pode se entregar, passivamente, aos seus cuidados. A força desse saber e dessa autoridade remeteria a uma impressão de firmeza que possibilitaria à criança tolerar os embates e as dores da convivência. Nesse contexto, o professor deveria entender que “disciplina” é um conceito extremamente relativo e que depende principalmente do que ele espera de seu aluno, dosando, portanto, o grau de liberdade que a ele se poderá proporcionar, de forma que lhe seja garantida a expressão de seus afetos, sejam de amor ou de ódio, sem o risco de respostas radicais e repressoras.
O professor deveria, ainda, ser capaz de tolerar o mal-estar inerente ao processo educativo, cuja dimensão extremamente abrangente provoca sempre frustração e põe à prova, o tempo todo, a persistência necessária ao sucesso.
Assim como a mãe, o professor também falha, e isso lhe conferirá uma condição de humanidade importante para que a criança aprenda a superar suas decepções e continuar sua vida apesar delas. Ao mesmo tempo, essas falhas não podem ser tais que cheguem a derrubar o professor da importante posição de representante do saber e da cultura. A criança, o aluno em geral, precisa dessa referência, por mais que isso lhe exija certas responsabilidades. Se o adulto abandonar seu papel, seu “lugar”, provocará na criança, certamente, um grande desamparo e um conseqüente desequilíbrio, tornando-lhe mais difícil o desafio que será feito, mais tarde, de encontrar, por sua vez, também o seu “lugar”, para que possa desempenhar o papel que lhe couber.
É de se esperar, à medida que o aluno cresce, que a relação de dependência estreita dê lugar a uma dependência mais relativizada, dando surgimento a um espaço de troca e também de mais criatividade e liberdade.
Talvez o conceito de suficiência provoque interrogações, pois não oferece parâmetros objetivos e precisos. O que é suficiente? Claro, temos aqui, na relação entre o professor e o aluno, uma situação muito complexa, que exige, por isso mesmo, constante atenção quanto às intensidades com que as atitudes, iniciativas e decisões precisarão ter para serem efetivas na promoção do desenvolvimento humano das crianças. Mas penso que o conceito é válido, pela desacomodação que gera, e pelo cuidado que sugere, a fim de que, qualquer que seja a nossa posição, ela esteja sempre procurando afastar-se dos extremos; exigindo-nos, enfim, um trabalho mais orientado pela intuição, pela sensibilidade e pela flexibilidade.
Espero que a articulista tenha sido suficientemente instigadora para provocar no leitor o desejo de pensar mais sobre isso tudo."
Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP
Com a passagem do dia das mães, achei muito pertinente trazer este texto que estudei na minha outra Faculdade semestre passado!O texto fala por si só, mas segue alguns pensamentos meus em relação ao assunto, apenas para complementar.
Penso que mãe e professor se ligam de uma forma muito concreta na vida da criança, e a dança de um suprindo as lacunas do outro é mais comum do que imaginamos. Quantas mães ensinam seus filhos em casa, aquilo que por inúmeros motivos não foi possível contemplar em aula? E mais comum ainda é o professor estabelecer um vínculo tão forte com o aluno, que por vezes a criança sonha em não ir para casa... e ficar sempre com a professora. Em sala de aula, as necessidades que atendemos com certeza ultrapassam os conteúdos, e fazem com que sejamos peças fundamentais para a construção da identidade dos nossos alunos. Professores e mães suficientes, na minha opinião, são aquelas que juntas cumprem a sua parte para que a criança, que é realmente quem interessa, obtenha sucesso em sua vida como um todo, tendo em quem confiar!

Um comentário:

Anice - Tutora PEAD disse...

Olá, Carina:

A partir dessa semana, modificamos a legenda da planilha de acompanhamento para que vocês já fiquem cientes se devem ou não refazer a postagem, já que é necessário que façam refexões a partir da prática trazendo argumentos ou linkando teoria com prática.

A legenda agora será RC (R= refazer e C= comentário do tutor) ou PC (P = postagem ok e C= comentário do tutor).

Aqui trazes teorias que embasam teu posicionamento e têm reflexões, portanto não é necessário refazer a postagem.

Grande abraço, Anice.